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Gerenciamento de Projetos e as Peculiaridades da Gestão de Projetos Sociais no Terceiro Setor

A área social vem sofrendo uma grande transformação nestes últimos dez anos, transitando de ações eminentemente assistencialistas para projetos sociais de alta complexidade.

Esta mudança gerou a necessidade de um aperfeiçoamento na gestão dessas ações, demandando, mesmo que intuitivamente, técnicas e ferramentas de gerenciamento de projetos.

Como se não bastasse, a riqueza desta temática (gestão de projetos) somou-se a heterogeneidade da área social, com instituições de diversas naturezas, portes, modelos de gestão, níveis de profissionalização e focos de atuação.

Estes projetos sociais têm sido realizados pelos mais diversos setores, o público, o privado e o não governamental (terceiro setor). Vamos, neste artigo, nos ater a este último, em razão da mescla de características que ele apresenta em relação ao público e ao privado.

O mais básico para entendermos esta nova perspectiva da gestão de projetos é definir alguns conceitos fundamentais, como gestão, projetos e terceiro setor.

Esta, inclusive, é uma das primeiras falhas apresentadas na gestão destes projetos sociais, que, por falta de domínio conceitual, conduzem rotinas e serviços como se fossem projetos.

Por gestão entende-se o processo de planejar, organizar, liderar e controlar o uso dos recursos para alcançar objetivos determinados.

Já em relação ao projeto, segundo definição da ONU: “um projeto é um empreendimento planejado que consiste em um conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas com o fim de alcançar objetivos específicos dentro dos limites de tempo e de orçamento dados”.

E, por fim, terceiro setor é o conjunto de instituições privadas, sem fins lucrativos, que administram recursos públicos e privados aplicados em programas e projetos de interesse público nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, cultura, saneamento, nutrição, arte, esporte e habitação, dentre outros.

Raciocinando sobre o prisma dos conceitos supracitados, podemos ainda acrescentar as peculiaridades da gestão de projetos sociais à luz do seu próprio conceito:

Um projeto social visa a promover melhorias ou mudanças sociais de preferência sustentáveis, isto é, melhorias ou mudanças sociais que permaneçam durante um período de tempo indefinido, além do prazo do projeto.

Uma melhoria social é a transformação de uma situação social problemática em outra menos problemática.

  • Por exemplo: benfeitorias realizadas em localidades com condições precárias de infraestrutura urbana.

Uma mudança social é uma diferença substancial observada em relação a situações, hábitos ou comportamentos sociais anteriores.

Por exemplo: quando adolescentes que cumpriram medida socioeducativa de liberdade assistida não entram novamente em conflito com a lei.

Esta riqueza conceitual e prática leva as organizações do terceiro setor e seus gestores a subestimar as peculiaridades da gestão de projetos na área social, mesmo que apresentem variação em intensidade, dimensão e consequência.

Seguem, abaixo, algumas das peculiaridades encontradas de uma forma geral em projetos sociais de todo o Brasil. São elas:

  • A primeira e mais forte é a passionalidade. O envolvimento emocional com a causa do projeto social e/ou com a comunidade beneficiada pode levar a tomadas de decisão sem base racional;
  • A subjetividade também está presente, tornando a avaliação dos resultados, a definição de metas, algo extremamente complexo em relação a aspectos subjetivos de transformação social, como, por exemplo: “a comunidade voltou a sonhar…”;
  • A terceira peculiaridade é a abrangência, ou seja, a teia entre o foco do projeto e uma série de outros públicos e/ou temáticas. Um projeto social voltado para a melhoria do estado nutricional de crianças de 0 a 6 anos de idade, convivendo com problemas habitacionais, educacionais, de saneamento básico da família em que a criança está inserida. O irmão que está envolvido com o tráfico de drogas, a mãe que é dependente química e o pai que está desempregado;
  • Peso das relações pessoais. As relações são totalmente baseadas nas pessoas, na confiança entre elas. A figura institucional é bastante frágil. Relações da organização não governamental e do seu gestor com a comunidade beneficiada e/ou parceiros dos projetos sociais dependem muito de aspectos ideológicos, de posturas pessoais e até de elementos como a empatia; e

Por fim, a cultura e a história em relação à gestão, em que, em razão da ideia anterior de que o que importava era realizar, atender, ajudar, sem definir qual o resultado dessa ação, praticamente pauta-se por um grande amadorismo de gestão.

Outras peculiaridades existem, mas o que mais preocupa são as “sequelas” de não levá-las em conta para o sucesso dos projetos e a adequação de todo ferramental de gestão destas características.

Portanto, o único caminho é a profissionalização da gestão, entendendo profissionalização como a ação de profissionalizar(-se); dar o caráter de coisa profissional a; tornar-se profissional e/ou adquirir caráter de profissional. E isso só é possível por meio das ferramentas de gerenciamento de projetos.


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